Querido Bentley (ou o aspirador peludo como te chamavamos)
Estejas lá onde estejas agora, pode ser que intercepte e-mails... Se existir o paraíso, espero que lá estejas, nesse paraíso só teu. Porque apesar de teres nome de carro de luxo e de vires de boas famílias inglesas (Pipas da Cruz Alta é o teu nome no registo) pouco ou nada tinhas de polite e de british. E por isso, se existir tal coisa, o teu também pouco terá a ver com um paraíso convencional, tenho a certeza que o teu não terá uma bela piscina azul mas um lago nojento e verde, de águas espessas e de preferência com porcarias a boiar para que tu possas abocanhar enquanto nadas. Nada de um longo campo relvado mas muitas poças lamacentas, nada de flores bonitas mas muitas cuecas sujas e meias rotas para esconderes nas bochechas enquanto finges com um ar despreocupado que não tens absolutamente nada na boca e para poderes claro, presentear os recém-chegados ao paraíso (espero que os teus amigos aí tenham menos vergonha do que nós tínhamos quando presenteavas os nossos amigos dessa maneira. Nada de sol brilhante mas muita chuva muidinha, daquela que me irritava de morte por causa do meu cabelo mas que a ti te punha todo farfalhudo e contente por de repente o ar todo ele se encher de água. Nada de pretos, ciganos, gatos e pombos todos a conviverem pacificamente no paraíso mas sim golden retrievers, só, porque é a única raça que gostas (os labradores lá vão escapando também) e bebés, muitos bebés, até gatos, que gostas de lamber como se fosses a mãe de todos. Cheio de papaias que devoravas inteiras e torradas estaladiças, que amuavas quando não partilhavamos contigo. Ah e no teu paraíso claro, quem faz as entregas são os senhores do Continente, pelos quais nos trocavas tão rapidamente que ficávamos sempre a questionar o teu amor por nós, tua família durante 13, exactamente 13, porque hoje fazias anos... (apesar de parecer que foi ontem que te trouxe dentro do meu kispo para casa, na altura nunca suspeitando a bizarma em que te ias transformar)
Não tens nada de cão exemplar ou de fiel, só mordeste aos teus donos e aos amigos, passavas sempre À bruta À frente de todas as crianças e senhoras, de preferência soltando uns puns pelo caminho e nunca, a não ser nos últimos dias que estavas doente foste à rua sem trela porque eras um perigo para ti e para os outros e nunca, pelo menos que eu me lembre, obedeceste à primeira a um : Bentley, vem cá! Das duas uma, ou a frase era mudada para um estratégico: Bentley, toma um biscoito; ou nos últimos anos, porque o biscoito já não colava, tínhamos de dar a mão À palmatória, admitir perante todos os que nos estivessem a ver que não te tínhamos dado o mínimo de educação, questionando as minhas capacidades de mãe educadora e sujeitando-nos à humilhação pública, tinhamos de te ir lá buscar e claro, fingias sempre que não era nada contigo mas ias olhando de lado, deixavas que chegássemos muito perto, até ao momento exacto em que te íamos agarrar, só para teres o prazer de correr aos saltinhos até um bocadinho mais longe.
Essa era talvez a tua capacidade mais bem desenvolvida, a mais treinada também: como tirar o seu dono do sério em 3 minutos. Quer fosse com o teu soninho de manhã, quando fazias de mula e não arredavas pé até resolveres ir mesmo já na altura em que se fôssmos contigo já íamos chegar atrasados, quer na tua rapidez em "guardar na boca" a segunda meia enquanto calçávamos a primeira, quer quando te sentavas em cima do livro que estavamos a ler, quando roubavas a sandes que tínhamos na mão, quando nos trincavas os dedos dos pés, quando pegavas no papel higiénico pela pontinha e corrias pela casa, quando escolhiaas os meus peluches preferidos para serem os teus preferidos também, quando limpavas depois de jantar os bigodes aos tapetes mais caros, quando espalhavas o teu jantar todo pela cozinha, quando roías os fios da tv cabo, as nossas meias e cuecas preferidas, os sofás, as cadeiras e os livros e os trabalhos. E por fim, tirar o seu dono do sério, lições para avançados, quando te batíamos e tu davas alegremente ao rabo, como se te estivessemos a esfregar com luvas de massagem aí sim, estavamos completamente humilhados e também invariavelmente felizes.
A casa sem ti está vazia agora, não tenho de fechar a porta para que tu não entres e roas tudo, mas também não tenho ninguém aos meus pés para me aquecer, nenhum pelo farfalhudo no qual chorar, sem me questionares porquê, ninguém a rebentar de alegria quando eu abro a porta, nem presentes para me dares (embora nunca os desses verdadeiramente porque fechavas as mandíbulas como se fosse o ultimo brinquedo do mundo) lá golden eras, mas retriever muito pouco... Não tenho a tua cara de foca para dar um beijinho de manhã e outro à noite, não tenho o teu ronco para adormecer nem ninguém para jogar futebol, ou para conversar quando estou sozinha...
Acho que te disse muito mais vezes que te odiava do que aquelas que te disse o quanto gostava de ti, mas nós eramos assim mesmo, eu a insultar-te, tu a deixares a marca dos teus dentes nas minhas mãos, mas os dois sabíamos o quanto gostávamos um do outro...
Vieste para esta casa preencher o vazio de outra pessoa e agora... Quem preenche o teu?
P.S. Querida Joja, confesso que nã tive ainda coragem de ler a tua mensagem porque sei o que me vai tocar, enquanto escrevi isto, pensei muito em ti e no que estas a passar, gosto muito de ti*
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Linda homenagem.. quem me dera por momentos ter sido o bentley para contigo poder ter partilhado alguns destes momentos que aqui descreves, mil beijinhos********
ResponderEliminarMeu Amor
ResponderEliminarEsperei até hoje para escrever-te qualquer coisa, nem sei bem porquê, pois todos os dias abro o nosso blog mas as palavras acabam por faltar-me.
Adoro e sempre adorei o Bentley e talvez por isso tb a partida dele custe a aceitar, em parte, pois mais do que ninguém percebi que quando amamos alguém sabe-los em paz e descanso é o Único conforto para o coração.
Lov U*